No novo modelo, o imposto que a sua empresa paga nas compras vira crédito para abater do imposto das vendas — e é aí que mora a maior oportunidade (e o maior risco) da reforma. Aproveitar todo o crédito a que tem direito reduz o imposto a recolher; deixar crédito na mesa é dinheiro jogado fora. Este guia mostra, com exemplos, como o crédito de IBS e CBS funciona, o que gera e o que não gera crédito, e como montar uma rotina para não perder nada.
A não cumulatividade é o coração da reforma. Mas crédito não cai do céu: ele depende de documento fiscal correto, de fornecedor que destaca o imposto e de uma rotina de conferência. Empresa que trata crédito como detalhe paga mais imposto do que precisa. Empresa que trata crédito como processo transforma a reforma em vantagem competitiva.
O que é crédito de IBS e CBS
Crédito é o imposto que veio destacado nos documentos das suas compras e que você pode abater do imposto das suas vendas. Quando vende, sua empresa gera um débito (o imposto da venda). Quando compra de fornecedor tributado, ganha um crédito (o imposto da compra). No fim do período, recolhe só a diferença.
A grande diferença em relação ao PIS/Cofins e ao ICMS atuais é a amplitude: no IVA dual, a regra é que toda aquisição tributada e ligada à atividade gera crédito. Acabam quase todas as listas de “isso pode, aquilo não pode” que hoje geram autuação e insegurança.
Exemplo numérico: crédito na cadeia
Vamos ver o crédito circulando por três elos. Uso uma alíquota hipotética de 26% apenas para ilustrar (a oficial ainda não foi fixada):
| Elo | Compra | Venda | Crédito | Débito | Recolhe |
|---|---|---|---|---|---|
| Indústria | R$ 0 | R$ 10.000 | R$ 0 | R$ 2.600 | R$ 2.600 |
| Distribuidor | R$ 10.000 | R$ 16.000 | R$ 2.600 | R$ 4.160 | R$ 1.560 |
| Varejo | R$ 16.000 | R$ 25.000 | R$ 4.160 | R$ 6.500 | R$ 2.340 |
Some o que cada elo recolheu: 2.600 + 1.560 + 2.340 = R$ 6.500 — exatamente 26% do preço final ao consumidor (R$ 25.000). O imposto não se acumulou: cada empresa pagou só sobre o valor que agregou. É isso que o crédito garante.
O que gera e o que não gera crédito
A regra é ampla, mas tem limites. Em linhas gerais:
| Em regra, GERA crédito | Em regra, NÃO gera crédito |
|---|---|
| Mercadorias para revenda | Itens de uso e consumo pessoal dos sócios |
| Insumos e matérias-primas | Aquisições sem documento fiscal idôneo |
| Energia, comunicação e serviços ligados à atividade | Compras de fornecedor que não destaca o imposto (ver Simples) |
| Bens do ativo usados na operação | Itens expressamente vedados na legislação |
| Fretes e serviços tomados na cadeia | Despesas sem vínculo com a atividade |
O caso do Simples Nacional (leia com atenção)
Esse é o ponto que mais gera confusão — e onde é preciso ser exato. A empresa do Simples Nacional pode transmitir crédito de IBS/CBS ao cliente que compra dela, mas o tamanho desse crédito depende de como ela apura:
Na prática, isso cria uma decisão estratégica: uma empresa do Simples que vende para clientes que aproveitam crédito (indústria, comércio) pode ficar mais competitiva optando por apurar “por fora”, justamente porque passa a entregar crédito cheio. Já quem vende para consumidor final (que não usa crédito) tende a ganhar mais ficando no regime unificado. É conta na ponta do lápis, caso a caso — veja Simples Nacional: IBS e CBS dentro ou fora do DAS.
Passo a passo: uma rotina para não perder crédito
Aproveitar crédito é processo, não sorte. Monte esta rotina:
Passo 1 — Exija e valide o documento fiscal
Todo crédito nasce de um documento correto. Estabeleça a regra: nenhuma compra entra sem nota fiscal idônea com IBS/CBS destacados. Valide os campos na entrada, não no fechamento do mês.
Passo 2 — Classifique cada compra
Separe as compras entre as que geram crédito e as que não geram, já no lançamento. Isso evita o retrabalho de “garimpar” crédito depois e reduz o risco de esquecer aquisições legítimas.
Passo 3 — Concilie crédito x débito todo mês
Feche o mês confrontando os créditos apurados com os débitos das vendas. A conciliação mensal revela crédito esquecido e erro de destaque antes que vire prejuízo acumulado.
Passo 4 — Mapeie fornecedores pelo crédito que geram
Classifique fornecedores por tipo de crédito (regime regular = cheio; Simples por dentro = limitado). Esse mapa vira argumento de negociação e critério de compra. Um fornecedor um pouco mais caro que gera crédito cheio pode sair mais barato no líquido.
Passo 5 — Ajuste o plano de contas
Crie contas específicas para IBS a recuperar, CBS a recuperar e seus débitos. Sem contas próprias, o crédito se perde na contabilidade. Veja plano de contas na reforma.
Erros que custam caro
- Aceitar compra sem documento idôneo. Sem nota correta, não há crédito — o imposto vira custo.
- Escolher fornecedor só pelo preço de etiqueta. O custo real é o preço menos o crédito gerado.
- Não conciliar crédito e débito todo mês. Crédito esquecido raramente é recuperado depois.
- Tratar o Simples como se todo fornecedor gerasse crédito cheio. Por dentro do DAS, o crédito é limitado.
- Misturar despesa pessoal com a da empresa. Uso pessoal não gera crédito e ainda expõe a autuação.
Checklist do crédito
- Regra de entrada: nenhuma compra sem documento fiscal idôneo com IBS/CBS destacados.
- Compras classificadas (gera x não gera crédito) no lançamento.
- Conciliação mensal de crédito x débito.
- Fornecedores mapeados pelo tipo de crédito.
- Plano de contas com IBS/CBS a recuperar e a recolher.
Perguntas frequentes sobre créditos
Toda compra gera crédito de IBS/CBS?
Em regra, toda aquisição tributada ligada à atividade gera crédito. As exceções são itens de uso pessoal, compras sem documento idôneo e casos expressamente vedados na lei.
Comprar de empresa do Simples gera crédito?
Gera, mas limitado quando o Simples apura “por dentro” do DAS. Se o fornecedor do Simples optar por apurar “por fora” (regime regular/híbrido), o crédito passa a ser integral.
Bens do ativo geram crédito?
Em regra, sim, quando usados na atividade da empresa. É uma ampliação importante frente ao modelo atual, e precisa entrar na conta de investimentos.
O que acontece se sobrar crédito?
Quando o crédito supera o débito no período, o saldo é acumulado e, conforme a regulamentação, pode ser compensado em períodos seguintes ou ressarcido. Acompanhe as regras específicas na fonte oficial.
Preciso guardar os documentos?
Sim. O crédito precisa estar lastreado em documentos fiscais idôneos, que devem ser guardados pelo prazo legal. É a prova do seu direito ao crédito.
Sou Rafael Machado, contador (CRC 1SP 263122/O), em Taubaté/SP. Escrevo aqui para descomplicar a reforma para contadores e empresas. Se quiser trocar uma ideia sobre o seu caso, fale comigo.
Falar no WhatsAppSobre o autorFontes
- Lei Complementar nº 214/2025, art. 47 (não cumulatividade e crédito), §9º, II (Simples).
- Comitê Gestor do IBS — cgibs.gov.br.
- Receita Federal — Reforma Tributária do Consumo (gov.br/receitafederal).
Conteúdo informativo, atualizado em julho de 2026. Não substitui a orientação de um contador ou advogado para o seu caso concreto. As datas e alíquotas da reforma tributária ainda podem mudar — confirme sempre na fonte oficial (Comitê Gestor do IBS e Receita Federal) antes de decidir.

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