O split payment, que começa em 2027, vai separar parte do IBS e da CBS no momento do pagamento — e isso muda o fluxo de caixa de toda empresa, mesmo sem mudar o lucro. Para o contador, preparar o caixa do cliente virou um dos serviços de maior valor da reforma: quem projeta a reserva de giro em 2026 atravessa 2027 tranquilo; quem não projeta, aperta. Este guia mostra, com números, como montar essa preparação passo a passo.
Com o split payment, parte do valor da venda vai direto ao Fisco e não entra no caixa. Refaça a projeção de caixa considerando esse desconto já na origem do recebimento.
A confusão mais comum é achar que o split payment “cobra mais imposto”. Não cobra. O que ele faz é tirar do caixa da empresa um dinheiro que, hoje, fica lá por algumas semanas entre o recebimento da venda e o recolhimento do imposto. Muita empresa usa esse valor como giro sem perceber. Quando ele passa a sair na origem, o giro encolhe — e é isso que precisamos antecipar.
O que muda no caixa, na prática
Hoje: a empresa vende, recebe o valor cheio e recolhe o imposto depois. Com o split: no pagamento, a parcela de IBS/CBS já é separada e o caixa recebe o valor líquido. O lucro é o mesmo; o momento e o tamanho da entrada mudam.
Simulação: o impacto em números
Vamos a um cliente que fatura R$ 80.000 por mês, com R$ 30.000 de créditos de compras. Uso alíquota hipotética de 26% só para ilustrar (a oficial não foi fixada):
| Item | Hoje | Com split (2027) |
|---|---|---|
| Faturamento | R$ 80.000 | R$ 80.000 |
| Débito de IBS/CBS (26%) | R$ 20.800 | R$ 20.800 |
| Crédito das compras | R$ 7.800 | R$ 7.800 |
| Imposto líquido | R$ 13.000 | R$ 13.000 |
| Entra no caixa no mês | R$ 80.000 | aprox. R$ 67.000 (líquido do retido) |
| Recolhe depois, do caixa | R$ 13.000 | R$ 0 |
O imposto líquido (R$ 13.000) e o lucro não mudam. Mas some do caixa aquele valor que ficava disponível por semanas. Se o cliente girava com ele, esse é o buraco a preencher — e dá para preencher com antecedência.
Passo a passo para preparar o caixa
Passo 1 — Meça o giro que depende do imposto a recolher
Nos últimos 12 meses, calcule quanto de imposto sobre consumo ficou no caixa do cliente entre receber e recolher. Esse número é o tamanho do impacto do split. Sem ele, qualquer preparação é chute.
Passo 2 — Monte a reserva de giro ao longo de 2026
Com o valor em mãos, construa gradualmente uma reserva equivalente a um ou dois meses desse imposto. Diluir o esforço em 2026 é muito mais fácil do que buscar o valor de uma vez em 2027.
Passo 3 — Ajuste o ciclo de recebimentos e pagamentos
Encurtar o prazo médio de recebimento e negociar prazos maiores com fornecedores alivia a pressão sobre o giro. É gestão pura e rende mais quanto antes começar.
Passo 4 — Reveja descontos e política de prazos
Descontos agressivos que só se sustentavam com o giro do imposto viram prejuízo quando o caixa encolhe. Reavalie a política comercial junto com a precificação. Veja precificação na reforma.
Passo 5 — Refaça a projeção de caixa de 2027
Monte a projeção do primeiro semestre de 2027 já com a retenção do split. Esse é o entregável que mostra ao cliente, em uma tela, que ele está preparado. É um dos trabalhos de maior valor que o contador leva à mesa hoje.
Quais clientes correm mais risco
Nem todos sentem igual. Priorize na sua carteira:
- Empresas com margem apertada e ciclo de caixa longo.
- Quem já opera no limite do giro e depende de capital de terceiros.
- Negócios com forte sazonalidade, em que o colchão do imposto ajudava nos meses fracos.
- Empresas que praticam descontos agressivos sustentados pelo caixa.
Erros que custam caro
- Explicar o split como aumento de imposto. É mudança de caixa, não de carga.
- Não medir o giro que depende do imposto. Sem o número, não há como dimensionar a reserva.
- Deixar a reserva para 2027. Concentrar o esforço no último minuto é o que quebra o giro.
- Ignorar clientes de margem apertada. São os mais expostos e os que mais precisam de você.
- Não entregar a projeção de 2027. É o que transforma o alerta em segurança para o cliente.
Checklist do caixa para o split payment
- Giro dependente de imposto a recolher medido (12 meses).
- Reserva de giro em construção ao longo de 2026.
- Ciclo de recebimentos e pagamentos ajustado.
- Política de descontos revisada.
- Projeção de caixa de 2027 refeita com o split.
Perguntas frequentes
O split payment reduz o lucro do cliente?
Não. O lucro e o imposto líquido são os mesmos. O que muda é que o imposto deixa de passar pelo caixa, encolhendo o giro de quem contava com ele.
Quando isso começa?
Em 2027, de forma gradual, começando pelos meios eletrônicos (Pix, boleto, transferência) e depois cartões. Veja como funciona o split payment.
Como calculo o impacto no caixa do meu cliente?
Meça, nos últimos 12 meses, quanto de imposto sobre consumo ficou no caixa entre receber e recolher. É, aproximadamente, o valor que o split passará a reter na origem.
Vale a pena montar reserva mesmo para cliente saudável?
Vale. Mesmo quem não depende do giro do imposto se beneficia de entrar em 2027 com a projeção pronta e sem ajuste de última hora.
Sou Rafael Machado, contador (CRC 1SP 263122/O), em Taubaté/SP. Escrevo aqui para descomplicar contabilidade, tributos, gestão e IA para contadores e empresas. Se quiser trocar uma ideia sobre o seu caso, fale comigo.
Falar no WhatsAppSobre o autorFontes
- Lei Complementar nº 214/2025 (recolhimento e split payment).
- Comitê Gestor do IBS — cgibs.gov.br; Receita Federal — gov.br/receitafederal.
Conteúdo informativo, atualizado em julho de 2026. Não substitui a orientação de um contador ou advogado para o seu caso concreto. As datas e alíquotas da reforma tributária ainda podem mudar — confirme sempre na fonte oficial antes de decidir.

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