Reprecificar na reforma tributária não é “passar o imposto para o preço”. É refazer a conta do zero, porque o novo modelo — CBS + IBS, o IVA dual — é não cumulativo: o imposto pago nas compras vira crédito e abate o imposto da venda. Quem simplesmente empilha a alíquota nova sobre o preço antigo vai ficar caro e perder venda; quem entende a mecânica do crédito pode até ganhar competitividade.
Este é um guia completo de como recalcular o preço de venda da sua empresa, em 7 passos, com três contas completas (comércio, serviço e Simples Nacional), a tabela que mostra o peso do fornecedor, o efeito por regime tributário, o impacto do split payment no caixa, os erros que mais custam caro e o que fazer já em 2026, enquanto ainda é ano de teste. Ao final, você terá o método para montar a sua própria planilha de reprecificação.
Por que a reforma muda o seu preço (e não é só repassar imposto)
No modelo antigo, tributos como ICMS, PIS e Cofins ficavam embutidos no custo, em cascata, difíceis de enxergar. No novo modelo eles são cobrados por fora e são não cumulativos: você registra o imposto da venda (o débito) e desconta o imposto que veio destacado nas compras (o crédito), recolhendo só a diferença — o imposto líquido.
A consequência para a precificação é direta: o que pesa no seu preço não é a alíquota cheia, e sim quanto de crédito você consegue aproveitar. Uma empresa com muitos insumos que geram crédito tende a sofrer menos; um prestador de serviço com poucos insumos tende a sentir bem mais. Precificar “no chute”, repassando a alíquota inteira, é o caminho mais rápido para ficar caro sem necessidade.
Sobre a alíquota: a alíquota de referência do IVA dual ainda está em definição. Nos exemplos usamos 26,5% apenas para ilustrar o método — troque pela oficial quando publicada. O que não muda é a lógica do cálculo, e é ela que você precisa dominar.
Antes de começar: o que ter em mãos
Reprecificar sem base é chute. Reúna primeiro estes elementos:
- Planilha de custos atual, item a item (insumos, mercadorias e serviços tomados).
- Lista de fornecedores, marcando quem vai gerar crédito de IBS/CBS (regime regular gera; parte do Simples gera crédito limitado; informal não gera).
- Seu regime tributário — Simples, Lucro Presumido ou Real — porque o efeito muda em cada um.
- Preço de venda atual e a margem que você pratica hoje, por produto ou linha.
Com isso na mão, o cálculo abaixo flui. Sem isso, qualquer número é palpite.
Passo a passo: como recalcular o seu preço (7 passos)
1. Separe preço e imposto (por fora)
Refaça a planilha destacando o imposto fora do preço, como o novo modelo exige. Crie três colunas: “preço sem imposto”, “imposto” e “preço final”. Isso acaba com a confusão do modelo antigo, em que tudo vinha embutido, e deixa visível o que é receita sua e o que é apenas trânsito de imposto.
2. Levante os créditos de entrada, fornecedor a fornecedor
Para cada compra, verifique se o fornecedor destaca IBS/CBS na nota. Some o imposto destacado: esse é o seu crédito. Classifique cada fornecedor como “gera crédito”, “crédito limitado” (parte do Simples) ou “não gera”. Fornecedor que não gera crédito encarece o seu produto final — guarde essa informação, ela reaparece no passo 6.
3. Calcule o débito da venda
Aplique a alíquota sobre o preço de venda, por fora: débito = preço de venda × alíquota. É o imposto “bruto” da sua saída, antes de qualquer desconto.
4. Calcule o imposto líquido
Imposto líquido = débito da venda − créditos das compras. Esse é o número que efetivamente sai do seu bolso — e não a alíquota cheia. É aqui que a não cumulatividade aparece na prática: você paga imposto sobre o valor que agregou, não sobre o preço inteiro.
5. Recalcule a margem
Refaça a margem usando o imposto líquido no lugar dos tributos antigos: margem = preço − custo dos insumos (líquido do crédito) − imposto líquido − demais custos. Compare com a margem atual. Se caiu, não corra para o preço ainda — vá ao passo 6.
6. Decida a alavanca (nem sempre é o preço)
Se a margem apertou, você tem três alavancas antes de aumentar o preço: (a) trocar de fornecedor por um que gere crédito; (b) revisar o mix de produtos/serviços, priorizando os de melhor margem líquida; (c) ajustar o preço onde o mercado permitir. Muitas vezes a troca de fornecedor resolve sozinha — como o exemplo da tabela mais adiante mostra.
7. Ajuste o caixa pelo split payment
A partir de 2027, parte do imposto pode ser retida no momento do recebimento (split payment). A margem não muda, mas entra menos dinheiro por venda. Reprojete o fluxo de caixa e monte reserva de giro — detalhamos isso numa seção própria abaixo.
Exemplo 1 — Comércio (revenda)
Loja que compra a R$ 600 (com imposto destacado) e vende a R$ 1.000. Alíquota ilustrativa de 26,5%.
| Item | Valor |
|---|---|
| Débito na venda (26,5% de R$ 1.000) | R$ 265,00 |
| Crédito na compra (26,5% de R$ 600) | R$ 159,00 |
| Imposto líquido | R$ 106,00 |
Como o comércio tem muita compra que gera crédito, o imposto líquido (R$ 106) fica bem abaixo do débito cheio (R$ 265). A não cumulatividade trabalha a favor.
Exemplo 2 — Serviço (poucos insumos)
Prestador que fatura R$ 1.000 e tem poucos insumos com crédito (R$ 100). Mesma alíquota ilustrativa.
| Item | Valor |
|---|---|
| Débito na venda (26,5% de R$ 1.000) | R$ 265,00 |
| Crédito na compra (26,5% de R$ 100) | R$ 26,50 |
| Imposto líquido | R$ 238,50 |
O prestador de serviço, com pouco crédito, recolhe muito mais (R$ 238,50). Por isso serviços tendem a sentir mais a reforma e precisam reprecificar com atenção redobrada. Aqui a alavanca costuma ser preço e produtividade — não fornecedor, já que quase não há insumo para creditar.
Exemplo 3 — Fornecedor do Simples Nacional na sua cadeia
Agora imagine que o comércio do Exemplo 1 compra os mesmos R$ 600, mas de um fornecedor do Simples Nacional. Atenção a um ponto que muita gente erra: no regime normal do Simples (DAS), o fornecedor transfere ao cliente apenas a pequena fração de IBS/CBS embutida no DAS — quase nada perto do crédito integral. Só se ele optar pelo regime híbrido (apurar IBS/CBS “por fora” do DAS) é que passa a transferir o crédito integral, como o regime regular.
| Item | Fornecedor regular | Simples no DAS (sem híbrido) |
|---|---|---|
| Débito na venda | R$ 265,00 | R$ 265,00 |
| Crédito aproveitado pelo cliente | R$ 159,00 (integral) | só a fração do DAS (pequena) |
| Imposto líquido | R$ 106,00 | próximo de R$ 265,00 |
A diferença é enorme: de quem passa crédito integral, o líquido cai para R$ 106; do Simples no DAS, fica perto dos R$ 265 cheios. Por isso o fornecedor do Simples que vende para empresas precisa avaliar a opção pelo regime híbrido (janela de 1 a 30 de setembro de 2026, efeito em 2027) para não perder clientes que precisam de crédito.
O efeito do fornecedor no seu preço
Resumindo o que os exemplos mostraram: mesma venda, mesmo custo — muda só quanto de crédito o fornecedor gera.
| Compra de R$ 600 | Crédito integral | Simples no DAS | Sem crédito |
|---|---|---|---|
| Imposto líquido | R$ 106,00 | perto de R$ 265,00 | R$ 265,00 |
Da melhor para a pior situação, R$ 159 de diferença no imposto de uma única venda. Escolher fornecedor que gera crédito, na reforma, muitas vezes vale mais do que qualquer ajuste de preço.
O efeito por regime tributário
A mesma matéria-prima do cálculo muda de peso conforme o regime do seu cliente e o seu:
- Lucro Real e Presumido: entram cheios na não cumulatividade — é onde o cálculo de crédito mais importa e onde a reprecificação é mais urgente.
- Simples Nacional: no DAS normal, transfere ao cliente só a fração de IBS/CBS embutida no DAS (crédito mínimo). Para transferir crédito integral, precisa optar pelo regime híbrido (IBS/CBS por fora do DAS) — decisão de set/2026 com efeito em 2027. Quem vende para empresas deve avaliar isso.
Split payment: por que o caixa aperta (com exemplo)
A partir de 2027, o split payment pode separar o imposto no momento do pagamento (começando por Pix, boleto e transferências). Na prática: numa venda de R$ 1.000 com R$ 106 de imposto líquido, você pode receber R$ 894 na hora, e os R$ 106 já vão para o fisco — em vez de entrar R$ 1.000 e você recolher semanas depois.
O lucro é o mesmo, mas some o “fôlego” de quem usava esse intervalo como capital de giro. Como se preparar: refaça a projeção de caixa com a retenção no recebimento, renegocie prazos com fornecedores e clientes, e constitua uma reserva de giro ainda em 2026.
Como montar a sua planilha de reprecificação
- Uma linha por produto ou linha de produtos.
- Colunas: custo do insumo, crédito de entrada, preço de venda, débito, imposto líquido, margem antiga, margem nova.
- Uma aba de fornecedores classificados por crédito (regular / limitado / não gera).
- Um campo único para a alíquota (assim você troca a estimativa pela oficial de uma vez).
Com essa estrutura, reprecificar vira rotina: mudou custo ou fornecedor, a margem nova se recalcula sozinha.
Erros comuns que custam caro
- Repassar o imposto cheio ao preço sem descontar os créditos — e ficar caro à toa.
- Ignorar o fornecedor que não gera crédito (as tabelas mostram o tamanho do estrago).
- Usar a mesma conta para toda a linha de produtos/serviços.
- Tratar o split payment como perda de margem (é caixa, não margem).
- Fechar preço definitivo com alíquota não confirmada — use estimativa só para simular.
Checklist rápido
- Planilha com preço e imposto separados.
- Fornecedores classificados por crédito.
- Imposto líquido calculado por produto/serviço.
- Margem refeita e alavanca escolhida.
- Caixa reprojetado para o split payment.
O que fazer agora, em 2026 (ano de teste)
2026 tem alíquota informativa de 1% (CBS 0,9% + IBS 0,1%) e sem recolhimento — o laboratório perfeito. Rode a nova precificação em paralelo à atual, compare margens e descubra onde aperta antes de a cobrança começar, em 2027. Quem chega em 2027 com a planilha validada não é pego de surpresa.
Perguntas frequentes
Vou ter que aumentar meus preços?
Depende do saldo entre o imposto da venda e os créditos das compras. Comércio com muito crédito pode até baixar; serviço com pouco crédito tende a precisar ajustar. Só a simulação com os seus números diz.
Como calculo o imposto líquido rapidamente?
Débito da venda menos créditos das compras. Comprou R$ 600 e vendeu R$ 1.000 à mesma alíquota? O líquido recai sobre a diferença (R$ 400) — a lógica do valor agregado.
Sou do Simples, preciso reprecificar?
Sim. O crédito que você transfere (ou não) ao cliente afeta sua competitividade e o preço que o mercado aceita.
Comprar de fornecedor do Simples é ruim?
Depende. No DAS normal, o Simples passa só um crédito mínimo (a fração embutida no DAS). Se o fornecedor optar pelo regime híbrido, passa crédito integral. Para quem precisa de crédito, confirme em qual regime o fornecedor está.
Quando isso pesa no preço?
A cobrança da CBS começa em 2027; o IBS sobe de 2029 a 2033. A hora de recalcular é agora.
Qual alíquota uso enquanto a oficial não sai?
Uma estimativa apenas para simular. Nunca feche preço definitivo com número não confirmado na fonte oficial.
Leia também: créditos de IBS e CBS na prática, fluxo de caixa e split payment, o que são CBS e IBS e o cronograma até 2033.
Fontes
- Comitê Gestor do IBS — marco de 03/08/2026
- Receita Federal — Orientações da Reforma para 2026
- Agência Brasil — regulamentação da cobrança (split payment)
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Atualizado em 30/07/2026. Conteúdo informativo; não substitui a orientação de um contador para o caso concreto. A alíquota de referência ainda está em regulamentação — confirme na fonte oficial antes de fechar preços.

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